algodon_engaña

Vou visitar teu passado
Pra te fazer meu Xodó
Oh, meu amado Mocó
Serás por nós abraçado
Por todos nós cultivado
Com muito amor e paixão
Te farei uma canção
E cantando firmemente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Plantado de canto a canto
Do Sertão ao Cariri
Na minha infância, eu vi
Era um verdadeiro encanto
O seu vigor era tanto
Causava admiração
Feito neve pelo chão
Enchendo a vista da gente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Terras sãs, ensolaradas
Nutriam tuas raízes
Muitas famílias felizes
Com suas mãos calejadas
Foram beneficiadas
Com capuchos de algodão
Ouro branco da nação
Que me fazia contente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Mas tudo isso cessou
Veio um desgosto profundo
Parecia o fim do mundo
Quando o Bicudo “chegou”
Nisso, a crise se alastrou
Feito larva de vulcão
E essa destruição
Deixou minh’alma doente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Suspeito que esse terror
Que “chegou” em nosso meio
Tô quase certo que veio
Na maleta de um Doutor
Que nutria desamor
Pela nossa região
Mas eu tenho a solução
Gravada na minha mente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

O exemplo quem me deu
Foi quem superou a tudo
Prum “Batalhão de Bicudo”
O Mocó não se rendeu
Seu plantio arrefeceu
Mas o seu espírito, não
Ante as garras da extinção
Resistiu valentemente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Homens, ditos da ciência,
Te deram as costas, coitado!
Por muitos, abandonado
Sem chance de permanência
Porém tua resistência
Comparada à de um leão
Mantém, teu legado, são
Com um futuro latente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Mas tu não foste esquecido
Vives na minha lembrança
Com saudade e esperança
Durmo, contigo, vestido
Por ti acordo aquecido
Rezando a minha oração
Começo a minha função
Vestido, por ti, somente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Não clamo, não desespero
E sem razão pra chorar
Já parei de lamentar
Volta pra mim, que te quero
Se é por ti, eu espero
Trajado de emoção
Pra receber um irmão
Que me ama eternamente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Aqui, acolá, além
Há um novo movimento
Eu tomei conhecimento
Que muitos te querem bem
Tô nesse meio também
Quer haja chuva ou verão
Farei nova plantação
Para tê-lo novamente.
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Quando vou pro meu roçado
Que vejo você florindo
Eu vou e volto sorrindo
Com você, sonho acordado
Pois estou enamorado
E, quando me deito, então
Me vem a inspiração
Pra mudar o meu presente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

O Mocó, que não perdeu
A guerra contra essa “praga”,
É chama que não se apaga
É sonho que não morreu.
Como a Fênix, renasceu
Das cinzas, brasa e carvão
Forte tal qual Lampião,
O cangaceiro valente,
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Meus irmãos, agricultores
O Mocó, vamos plantar
Ouro branco, semear
Ouvindo nossos cantores
Lembrando nossos amores
Lançando, outra vez, no chão
As ‘sementes da paixão’
Continuando a corrente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Quem já teve tanta glória
Quem, muitas vidas, criou
Quem riqueza já gerou
Quem tem lugar na história
Já gravada na memória
Do povo do meu Sertão
Que se veste de algodão
É amado eternamente
Plantarei tua semente
Nas terras do coração

Nuestro mayor agradecimiento y respeto a José de Souza Silva (filósofo) y Oliveira de Panelas
(galardonado con el premio al mejor poeta repentista de Brasil), autores de estos versos.